"Tudo é teu, que enuncias. Toda forma nasce uma segunda vez e torna infinitamente a nascer. O pó das coisas ainda é um nascer em que bailam mésons. E a palavra, um ser esquecido de quem o criou; flutua, reparte-se em signos para incluir-se no semblante do mundo. O nome é bem mais do que nome: o além-da-coisa, coisa livre de coisa, circulando. E a terra, palavra espacial, tatuada de sonhos, cálculos".

(Carlos Drummond de Andrade, Lição de coisas, Origem: A palavra e a terra, V - 1962)

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sexta-feira, 15 de abril de 2011

Lá e cá


Então vem o silêncio. Abrupto. A tênue e fina linha, invisível e inatingível. Não há laços, traços, rastros, nem restos. Os cacos são cacos, o que foi não é. Não há nada. Só quem volta pode saber. E volta sempre, sempre com a esperança torta. De mais uma linha, uma letra, uma confissão de redenção. Algo para que o impossível seja só força de expressão. Mas, mais uma vez o lugar comum é lugar nenhum. Uma mentira sob um pseudônimo e a chave e o seu nome revelado. Encerra-se o diálogo de poucas palavras e voltam para as vidas comuns e o quase perto volta a ser sempre longe. Fica dentro, retido e contido tudo o que não pode vazar. Quase uma utopia. Há o medo de enlouquecer genuinamente e por uma causa perdida nessas inconstâncias e peças que prega o coração. Isto é o que não pode ser esquecido, marcado na pele e n’alma. Falta sempre um pedaço de algo palpável para que o delírio não seja só imaginação. O mar sem ondas não lambe a praia e todas as pegadas ficam. Tudo como está. Não sendo possível explicar sentimentos, as palavras perdem o dom de recriar. Ficam versos soltos, sem sentido, sem perfume ou flor. Somos velhos medrosos, presos a conceitos tortos e com visão cega falando de mundos que nunca vimos. Tudo como está. Lá e cá.